Quem são os operários de Tarsila do Amaral?
Por Lucas Fortunato

Tarsila do Amaral é uma das mais reconhecidas pintoras do país, com repercussão internacional, principalmente por sua atuação no chamado Modernismo brasileiro, e importantes exposições mesmo após a sua morte na década de 1970, com destaque para os trabalhos do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Um de seus quadros mais famosos é “Operários” (imagem que ilustra esta publicação), de 1933. Para entender a obra é necessário também conhecer o contexto de sua realização.
No estudo da vida e trabalhos da artista, sua vasta produção costuma ser divida em etapas distintas. Dentre elas, destacam-se a “Fase Pau-Brasil” e a Fase “Antropofágica”, nos anos iniciais e finais, respectivamente, da década de 1920. Na primeira, deu ênfase às cores verde, amarelo, azul e rosa, que chamava de “caipiras”, por lembrarem-na de sua infância nas fazendas de seu pai em São Paulo. Já a segunda é marcada pelo Abaporu (1928), obra mais famosa de Tarsila e quiçá da arte brasileira. À época, o quadro foi um presente de aniversário para seu então companheiro Oswald de Andrade, que acabou tomando-a como inspiração para o Movimento Antropofágico, tornando-se esta um grande símbolo do modernismo no país.
Acontece que, no final dos anos 20, a pintora passa por alguns problemas pessoais. Entre eles, destacam-se uma dificuldade financeira, muito por conta da crise de 1929, que se refletiu na produção cafeeira no Brasil e, consequentemente, levou a muitas perdas econômicas de seu pai. Além disso, ela foi traída por Oswald, que se envolveu com Pagu, como ficou conhecida a estudante Patrícia Galvão. É nesse cenário que Tarsila teve que buscar outras oportunidades de trabalho e, posteriormente, inicia o namoro com o médico Osório Cesar, comunista.
Dois anos depois, em 1931, Tarsila realiza uma exposição em Moscou, então capital da União Soviética. Na volta ao Brasil, durante o governo provisório de Getúlio Vargas, ela passa a frequentar reuniões do Partido Comunista, e por isso, acaba presa. Após a sua soltura, cerca de um mês depois, a artista resolve romper seu relacionamento e se afastar da política partidária. Contudo, sua aproximação com a causa operária, que já se manifestava desde a visita à capital socialista, continua.
O começo da década de 1930, com ênfase no ano de 1933, constitui a chamada “Fase Social” da artista, cuja obra principal é justamente “Operários”. Os personagens retratados na tela, portanto, representam os trabalhadores urbanos das fábricas, contemporâneos da artista, e refletem sua atenção a três questões centrais.
A primeira delas é naturalmente a temática social e política, na qual a artista denuncia as desigualdades e as más condições de trabalho da época, através das feições sóbrias e abatidas das figuras em primeiro plano. O processo de industrialização pelo qual o país passava também é referenciado pelas chaminés e a construção ao fundo. Afinal, um dos reflexos do Modernismo na Arte foram os processos de modernização das cidades e da sociedade brasileira na transição entre os séculos XIX e XX.
Por fim, e não menos importante, a diversidade étnica do país também é lembrada. Uma vez que a identidade brasileira era uma das principais temáticas modernistas, a artista representa através de cores e feições distintas as múltiplas culturas que formaram historicamente nosso país; além de aludir ao forte processo de imigração do início do século. Momento em que grande número de imigrantes, principalmente europeus e japoneses, foi incentivado a buscar novas condições de vida e trabalho no Brasil.
Por esses e outros motivos, quem sabe, o desejo de Tarsila do Amaral de ser “a pintora do seu país” tenha de fato se concretizado.
Imagem e referências: < https://www.tarsiladoamaral.com.br/>
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Lucas Fortunato é professor de Arte, pesquisador no campo do Cinema-Educação.