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Opostos

Foto do escritor: Jornal DakiJornal Daki

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


É manhã de sábado. Na praça do Gradim os bares fervem, o movimento na feira é intenso. Numa das mesas de um dos bares, Marquinhos Cabeção e Claudinha bebem uma cervejinha depois de terem feito as compras da semana. O filho, um guri de uns cinco anos brinca no celular. O casal bebe, namora e fala da vida. 


Numa cobertura do Leblon Alfredo não dormiu, apesar de ter tomado dois comprimidos de um forte calmante. Levanta e vai para a varanda, o mar à sua frente parece querer tragá-lo para o descanso eterno, até pensou em dar um mergulho para nunca mais voltar, mas lembrou de que a família depende dele e a empresa, com  mais de quinhentos empregados não sobreviveria sem suas mãos de ferro a comandá-la. A esposa, Thereza, também não acordou bem. O dia ia ser corrido, tinha marcado salão e já estava atrasada. Depois ainda ia passar na academia e rapidamente no shopping, precisava comprar um novo modelo para o almoço na casa do sócio de Alfredo. Não podia fazer feio, todas as amigas queriam arrasar e ela não podia ficar de fora. O filho dormia o sono dos anjos abraçado a muitos bonecos. 



No Gradim, enquanto Claudinha termina uma galinha Caipira com batatas que já havia adiantado na véspera para levar para a casa da sogra onde o almoço de família era sagrado todos os sábados, Marquinhos Cabeção afinava o cavaco para arrasar na roda de samba que se formaria após o almoço. O guri já corre pelo enorme quintal com primos e os meninos da vizinhança. 


No Leblon Alfredo olha o relógio impaciente. O filho vê TV com os pés no encosto do sofá e a cabeça no tapete. Thereza chega, depois de uma hora à frente do espelho a família finalmente sai de casa. No carro o rádio ligado na CBN traz as noticias politicas da semana, Alfredo soca o volante, o dólar subiu de novo e as ações da empresa não subiram ao patamar desejado. O caminho a beira mar é lindo, mas ninguém além dos olhos azuis do pequeno menino contempla aquelas ondas brancas frisando aquele azul de  mar que se confunde com seus olhos. 


No Gradim, Marquinhos Cabeção, Claudinha e o menino não precisam dar  muitos passos para chegar a casa da sogra que é no mesmo grande quintal, assim como os irmãos e cunhados. Começa o almoço, no cardápio compartilhado tem de omelete a feijoada, passando por dobradinha, sardinha frita e galinha. O bater de tampas de panelas e a algazarra da gurizada dá o tom daquele início de tarde. 


Na bela cobertura do Amigo de Alfredo, depois dos aperitivos de praxe é servido o almoço, filé de linguado ao molho de alcaparras, as conversas variam de compras no shopping e fofocas de salão, por parte das mulheres, até o novo carro, a nova lancha e as aplicações financeiras por parte deles. 


Termina o almoço no Gradim, uma bela roda de samba é formada, a galera samba fazendo a poeira subir, brindes com copos de cerveja, gargalhadas, a matriarca na cadeira de balanço cochila feliz. 


No Recreio, depois da sobremesa, café e licor, as mulheres vão para o jardim, Tomam  uma taça de champanhe enquanto as crianças vão para a sala de jogos e os homens para o escritório, onde uma mesa de poker é formada. 


A noite começa a cair, Marquinhos Cabeção toca a saideira, Espelho, do João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro. Todos parecem ouvir uma oração. Alguns choram lembrando dos pais que cedo partiram. No final uma grande salva de palmas e pedidos de bis que vem em homenagem a Ogum num samba de Marquinhos PQD. Todos se abraçam e choram a felicidade de mais um sábado em paz. 


No Recreio Alfredo sua em bicas de nervoso. Sobre a mesa de jogos as chaves da lancha que nem usou ainda, última rodada valendo o que já tinha perdido, mais a lancha. O adversário não pede cartas, Alfredo, apesar de não ter visto seu jogo também não quer. O parceiro vira seu jogo, ele tem uma quadra de ouro, Alfredo gela. Devagar vai virando seu jogo e sente a alma voltar para o corpo ao ver que tem em mãos um Royal Stretch flash. 


No Gradim Cabeção dá um beijo no guri, entra no quarto, Claudinha mordisca os lábios, ele apaga a luz... 


No Leblon Alfredo toma uma dose de Scott a cowboy olhando a silhueta de Thereza que passa hidratante no corpo. Ele apaga o charuto, fecha a porta da varanda e se deita, ela retira o penhorar, dá um sorriso e apaga luz... 


A felicidade em opostos lados, de diferentes maneiras tem a lua como testemunha e logo dará lugar ao sol, abençoando toda forma de amor e de amar. Que venha mais um domingo feliz. 


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.

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